SBPC lamenta a morte do físico e professor da USP Ernst Hamburger

O cientista trabalhou com física nuclear e teve atuação marcante na divulgação e na educação científica no Brasil. Grande parceiro da SBPC por toda a vida, foi membro da diretoria da entidade de 1979 a 1981. Seu enterro será hoje às 16h no Cemitério do Morumbi
Foto: Léo Ramos/Revista Pesquisa Fapesp
Foto: Léo Ramos/Revista Pesquisa Fapesp

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) lamenta a morte do físico e professor da Universidade de São Paulo (USP) Ernst Wolfgang Hamburger, que lutava havia três anos contra um linfoma – um tipo de câncer que atinge células do sistema imunológico. Conhecido por seus trabalhos com física nuclear, que ajudaram a entender a organização dos núcleos dos átomos, Hamburger também teve atuação marcante na SBPC e na divulgação e educação científica.

Em nome da SBPC, o presidente da entidade, Ildeu de Castro Moreira, expressa os sentimentos de pesar pelo falecimento do professor Hamburger, que também foi conselheiro da entidade entre 1973 e 1979 e membro da diretoria de 1979 a 1981. “Físico, professor e divulgador da ciência, com atuação intensa ao longo de muitas décadas, ele fez muito pela ciência, pela educação científica e pela divulgação da ciência no País. E foi um lutador incansável e corajoso pela democracia no Brasil. Era uma referência marcante para todos os cientistas, professores e estudantes pela sua generosidade, sensibilidade, competência e postura ética. Sentiremos muito sua falta”, afirma Moreira.

A diretora da SBPC, Roseli de Deus Lopes, também comentou a morte de Hamburger e o exalta dizendo que ele era, além de um ser humano excepcional, um grande profissional, cientista e mestre, e que trabalhou muito pela divulgação científica. Segundo ela, um dos destaques de sua trajetória foi seu trabalho como diretor da Estação Ciência, que ele ajudou a criar e dirigiu por quase dez anos, de 1994 a 2003. “Por causa desse trabalho, ele foi reconhecido, tanto no Brasil quanto fora. Eu tive o prazer de trabalhar com ele, inclusive dividindo a mesma sala, o que tornava a experiência um aprendizado constante”, lembra emocionada, Lopes, que é professora do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da USP.

Para a presidente de honra da SBPC, Helena Bonciani Nader, a morte de Hamburger representa a perda de um “pai intelectual”. Ela lembra vividamente a imensa colaboração dele para a realização da Reunião Anual da sociedade em 1977, quando o governo militar proibiu a realização do evento em Fortaleza, depois na USP, em São Paulo. A reunião, no final, aconteceu na PUC-SP, território do Vaticano. “Graças ao seu trabalho incansável, ele conseguiu mobilizar cientistas, estudantes e a sociedade civil em geral. Ele coordenou o trabalho de um grupo de pessoas para arrecadar fundos, com a venda, por exemplo, do cartaz do Galileu Galilei. Ele foi um exemplo para os jovens de luta pela democracia, pelos direitos, e foi fundamental para fazer acontecer aquela reunião”, conta a cientista. “Ele marcou a minha vida e de todos os jovens que trabalharam junto a ele”.

A dedicação e carinho do físico, bem como de sua esposa, Amélia Império Hamburger, com a SBPC, também merecem destaque, conforme ressalta Nader. “Ele sempre esteve presente. No sangue dele corria a SBPC”, comenta, lembrando que Hamburger nunca deixou de fazer parte da entidade. “Ele foi um grande entusiasta e sempre se dedicou à ciência e à educação no Brasil. Estamos mais pobres agora, porque precisávamos de mais brasileiros como o professor Hamburger, que sempre lutou pelas grandes causas do País”, declarou.

Biografia

Ernst Hamburger nasceu em 8 de junho de 1933 em Berlim, na Alemanha, e chegou ao Brasil em 1936, com três anos de idade, apenas. Cresceu entre as ruas Haddock Lobo e Groenlândia, nos Jardins, em São Paulo. Aprendeu português com os amigos na rua e estudou na Escola Estadual Presidente Roosevelt. Naturalizou-se  brasileiro em 1956.

Formado em Física pela USP, na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em 1954, obteve o PhD, com especialização em física nuclear, na Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, em 1959. Em 1970, tornou-se professor titular da USP, posição que ocupou até a aposentadoria compulsória, aos 70 anos de idade.

Também em 1970, foi preso e processado por sua colaboração com a oposição à ditadura militar. Convidado a lecionar na Inglaterra, teve o exercício da profissão coibido pelo impedimento de sair do Brasil. Optou, então, por aceitar o convite para ser professor na Universidade Federal da Bahia, em Salvador.

Como coordenador do curso básico de Física Geral e Experimental para as carreiras de exatas, no Instituto de Física da USP, Hamburger foi um dos artífices da renovação no método de ensino científico no País. A princípio, atuou no âmbito universitário, dando ênfase a aulas práticas de laboratório para tornar o aprendizado mais desafiador. Depois, elaborou diversos projetos destinados à formação de professores do ensino básico.

No território brasileiro, o físico exerceu diversas posições, tanto na academia quanto nos experimentos científicos, por várias décadas.  Além de coordenar e ser coautor de diversas obras didáticas sobre Física, publicou dezenas de livros sobre Física e energia nuclear. É reconhecido também por organizar a produção de filmes (anos 1970) e vídeos (a partir de 1985) didáticos de física, para ensino universitário, médio e fundamental. Além de supervisionar programas de TV para ensino médio de Física na década de 1990, como Colégio 2 na TV Cultura e Telecurso 2000 na TV Globo.

A atuação acadêmica de Hamburger ultrapassou fronteiras. Como pesquisador em Física Nuclear realizou experiências em Aceleradores Nucleares no Brasil e nos Estados Unidos, publicando dezenas de artigos em importantes revistas internacionais. Além disso, coordenou a construção de um Telescópio Eletrônico de Raios Cósmicos, de 1991 a 1998.

Premiação 

Em reconhecimento ao seu trabalho na área científica, Hamburger acumulava diversos prêmios, tanto nacionais como internacionais. Tais como os prêmios José Reis de Divulgação Científica, concedido anualmente pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); o Kalinga de Popularização da Ciência, concedido anualmente pela Unesco; o Palmes Académiques, Distinção concedida pelo governo de França. Outro destaque é o Prêmio Latino Americano de Popularização da Ciência e Tecnologia, concedido a cada dois anos pela Rede Latino-Americana de Popularização da Ciência (RedPop).

Mas o título de que ele mais se orgulhava era o de cidadão paulistano, concedido pela Câmara Municipal, em 2013. Para Hamburger, o Brasil ainda está longe de seu ideal, pois é preciso tornar a ciência tão popular quanto o carnaval e o futebol. “Na área de física, temos poucos professores, sobretudo nas regiões mais pobres”, disse no dia que recebeu o título de Cidadão Paulistano. Para melhorar este cenário, ele explicou que era preciso valorizar o professor, investir em incentivos, além de propor uma aula mais dinâmica para despertar o interesse do aluno pela disciplina.

Hamburger era um grande parceiro da SBPC e a última vez que ele esteve na entidade foi na inauguração do Centro de Memória Amélia Império Hamburger, em homenagem à sua esposa, em março de 2017. Acompanhado de 15 familiares, entre eles os filhos e netos, Hamburger se disse muito emocionado com a homenagem à sua companheira, falecida em 2011.

O casal deixa os filhos Esther, Sônia, Vera, Fernando e Cao, além de dois genros, uma nora e seis netos.

O velório de Ernst Hamburger será em sua casa, das 10h às 15h nesta quinta (5), e o enterro, no Cemitério do Morumbi às 16h30.

Jornal da Ciência