
O 8 de janeiro de 2023 não foi um ato isolado nem um “excesso”. Foi um ataque deliberado à democracia, às instituições da República e ao direito do povo brasileiro de decidir seu destino pelo voto.
Foi a expressão do ódio, da ignorância, do desprezo pela cultura e pelo conhecimento, e da recusa em conviver com a diversidade e com o Estado de Direito.
Não há relativização possível. Não há anistia para quem atenta contra a democracia. Defender a democracia é defender a Constituição, a soberania popular, a liberdade de pensamento e a convivência civilizada entre diferenças.
Os efeitos dos ataques às nossas instituições democráticas não se encerram com a limpeza dos escombros. Eles persistem na tentativa de normalizar a violência política, de desacreditar o processo eleitoral, de disseminar informações falsas e de corroer a confiança pública. Nossa resposta precisa ser firme, proporcional e pedagógica: garantir a responsabilização de mandantes, financiadores e instigadores, e renovar nosso compromisso com as regras do sistema democrático.
Democracia e soberania caminham juntas. Um país só exerce plenamente sua soberania quando protege as instituições que lhe dão legitimidade e canalizam o conflito social de forma pacífica. Quando a Constituição é atacada, a soberania se enfraquece. Quando a desinformação substitui o debate público consciente e baseado em fatos e evidências, perde-se a capacidade de decidir, com autonomia, o futuro de uma nação. Não existe democracia sem educação, sem ciência, sem justiça, sem cultura e sem acesso à informação de qualidade.
A SBPC reafirma o que defende desde sua criação, há quase oito décadas: ciência e educação são as bases do progresso, do desenvolvimento de um país; são os fundamentos de políticas públicas e da soberania nacional. Deve ser também parte da defesa democrática garantir que a justiça possa cumprir seu papel plenamente. Sem responsabilização e transparência, abre-se a porta da impunidade, o terreno onde o autoritarismo viceja.
O Brasil tem uma longa história de autoritarismo, mas também de conscientização e superação. A Constituição de 1988 é um símbolo desse aprendizado, o pacto que nos tirou das sombras da ditadura e que seguimos aperfeiçoando. Nosso papel é preservá-la com vigilância, participação social e o exercício cotidiano da tolerância e da autocontenção republicana. A democracia não se resume ao dia da eleição: aprende-se, pratica-se e sustenta-se todos os dias — no Parlamento, nas instituições de justiça, nas escolas, nas redes e nas ruas.
Que a memória do 8 de janeiro nos sirva de alerta permanente.
Que a justiça prevaleça.
Que a democracia seja nosso dia a dia.
8 de janeiro nunca mais. Democracia sempre!
Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência



