EDITORIAL – Na fila desde 2013: a ciência brasileira e o tempo perdido nas terras raras

“Do minério que iluminou a Europa em 1885 ao laboratório que separa neodímio a 99,9% de pureza sem ter planta industrial para operá-lo: o que muda entre uma fase e outra da história não é o conhecimento. É a decisão”, escreve Francilene Garcia, presidente da SBPC, para a editoria especial desta semana

whatsapp-image-2026-05-08-at-17-14-38Em 1885, navios atracavam nas praias da Bahia e do Espírito Santo e levavam areia monazítica como lastro. Não pagavam nada. O minério ia para a Áustria, onde Carl Auer von Welsbach o usava nas camisas de lampião a gás que iluminavam as cidades europeias. Era a primeira aplicação comercial de terras raras na história. O Brasil fornecia a matéria. A Europa ficava com a tecnologia e com o mercado.

O registro desse fato não é apenas uma curiosidade histórica, ele descreve com exatidão o modelo que o país ainda não superou. Cento e quarenta anos depois, exportamos concentrado e importamos ímãs. O que mudou foi a sofisticação da transação. A estrutura, não.

O acordo que não houve

Na década de 1940, o Brasil já era um dos maiores exportadores mundiais de monazita. Havia uma elite intelectual que entendia o que isso significava. O almirante Álvaro Alberto, fundador do CNPq, defendia que o minério ficasse no país como base de um programa nacional de tecnologia nuclear. A contrapartida seria conhecimento: o Brasil forneceria a matéria-prima em troca de acesso à tecnologia atômica norte-americana.

Os Estados Unidos recusaram. A matéria-prima foi. O conhecimento ficou lá.

A Lei 1.310 de 1951 criou o CNPq e proibiu a exportação de minerais atômicos sem autorização governamental (Art. 4º). Foi o primeiro ato concreto de proteção. Chegou tarde e com brechas, exportações de terras raras sem tório e urânio continuaram, e figuras políticas com interesse no setor privado exportador mantiveram os canais abertos. O padrão se repetia, com instrumentos mais sofisticados.

O Brasil pediu tecnologia e recebeu promessas. Forneceu o minério e ficou com o vazio. Esse não é um problema de má-fé. É um problema de posição negociadora.

A geração que construiu e a licença que chegou doze anos tarde

A Orquima foi estatizada em 1960 e incorporada ao programa nuclear. Com o tempo, passou a se chamar Nuclemon e depois INB — Indústrias Nucleares do Brasil. Por décadas, o foco do programa recaiu sobre o tório e o urânio que vinham misturados à monazita. As terras raras viraram subproduto. Foi uma escolha compreensível no contexto da Guerra Fria. E foi um equívoco de priorização que custaria uma geração.

Dentro desse quadro, porém, houve trabalho científico genuíno. Na planta da INB no Brooklin, em São Paulo, a equipe liderada por Rosental Calmon Melo desenvolveu, ao longo dos anos 1990, processo de separação de óxidos individuais de terras raras em alta pureza, primeiro em bancada, depois em escala semi-industrial. Era tecnologia brasileira, sobre minério brasileiro, desenvolvida por pesquisadores brasileiros com financiamento público.

A tragédia de Goiânia, em 1987, havia marcado o imaginário coletivo sobre radioatividade de forma irreversível. O crescimento urbano ao redor da planta gerou pressão legítima dos moradores. Em 1992, a unidade foi fechada. O plano era transferir tudo para Caldas, em Minas Gerais, onde a INB já tinha instalações. A licença ambiental para a nova planta ficou pronta em 2004.

Doze anos de espera. Quando a licença chegou, a China havia inundado o mercado com preços que tornavam o processo economicamente inviável. A equipe técnica havia se aposentado durante a espera. Rosental Calmon Melo registrou com precisão: ‘Com a licença em mãos não havia mais quem a operasse.’ O conhecimento estava documentado. Não havia quem o convertesse em planta industrial.

Em 2002, a produção de terras raras da INB havia sido desativada. O estoque de monazita acumulado em Buena, no Rio de Janeiro, foi vendido à China. Quinze mil toneladas de ‘torta II’, hidróxidos de tório, urânio e terras raras, estocadas em Caldas foram negociadas para exportação. O Brasil desfazia-se, em silêncio administrativo, da única capacidade industrial que havia construído.

O que o Jornal da Ciência já alertava em 2014

Em 2010, quando a China restringiu exportações e os preços dispararam, o Brasil voltou a olhar para suas reservas. Grupos de pesquisa foram reativados. O CETEM retomou trabalhos. O Senado criou uma subcomissão temporária para elaborar um marco regulatório para a mineração de terras raras, que aprovou seu relatório final em setembro de 2013 e nunca o levou ao plenário. Em dezembro do mesmo ano, a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação e Informática (CCT) do Senado criou o PLS 529/2013, o PADTR, programa de apoio ao desenvolvimento dos minerais de elementos terras-raras e a criação de cadeia produtiva do setor.

Em junho de 2014, este Jornal publicou, na página 10 da edição nº 761, a seguinte matéria: ‘PL do Senado cria cadeia produtiva para terras-raras.’ O subtítulo informava: ‘Por enquanto, o projeto encontra-se na fila de espera aguardando sua tramitação em plenário.’

O professor Osvaldo Antônio Serra, da USP de Ribeirão Preto, foi ouvido naquela matéria. Disse que havia 89 grupos de pesquisadores no Brasil estudando a viabilidade de extração de terras raras, 75 deles em química e física pura. E disse o que precisava ser dito: ‘Vamos muito bem na pesquisa pura, mas quando se trata de patente e de aplicação não temos praticamente nada.’

O PLS 529/2013 nunca foi votado.

O Jornal da Ciência registrou em 2014 o que os pesquisadores já sabiam: o conhecimento existe, a aplicação falta. Doze anos depois, o diagnóstico não mudou. O que mudou foi o custo de não agir.

O que a ciência acumulou e onde ainda precisa avançar

Os INCTs PATRIA (que encerrou suas atividades em 2024) e o MATERIA (aprovado no edital MCTI/CNPq/SECTI/MS/CAPES/FAPs Nº 46/2024) articulam CETEM, IPEN, CDTN, IPT, USP, UFSC, UFRJ, UFAM e outros em torno de toda a cadeia: da caracterização mineralógica ao ímã sinterizado. O CETEM separa praseodímio e neodímio com pureza superior a 99,9% em escala laboratorial. O IPT, em parceria com a CBMM e financiamento da Embrapii, percorre a rota do óxido ao neodímio metálico, à liga NdFeB e ao ímã sinterizado. A WEG, maior fabricante de motores da América Latina, já declarou que deseja usar ímãs nacionais e que não quer depender da China para comprá-los.

O problema não é falta de conhecimento. É que o conhecimento para na beira do abismo entre o laboratório e a planta industrial, o que os pesquisadores chamam de intervalo TRL 5–8, e não tem instrumento público capaz de atravessá-lo. Esse intervalo exige capital de risco, contratos de offtake, garantia de mercado. Nenhum instituto de pesquisa os gera sozinho. É função do Estado. E o Estado brasileiro, até hoje, não entrou nesse espaço com a escala necessária.

A SBPC tem reafirmado, historicamente, que a ciência brasileira faz a sua parte. Não é apenas uma frase de efeito, é um registro factual. Cada geração de pesquisadores entregou o que lhe cabia: Rosental e sua equipe entregaram o processo de separação nos anos 1990. Os grupos do CETEM e do IPEN entregaram a hidrometalurgia. Os INCTs entregam hoje a rota do laboratório à liga. O que não foi entregue, em 1951, em 1992, em 2004, em 2014, e ainda em 2026, é a decisão política de converter esse conhecimento em planta industrial, em produto, em soberania.

O que a história cobra desta geração

Em abril de 2026, a Serra Verde, o único depósito operacional de argilas iônicas magnéticas fora da Ásia, foi adquirida pela empresa norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões. Sem audiência pública. Sem condicionante de processamento no Brasil. Sem análise formal de interesse nacional antes da conclusão da transação. Na mesma semana, o presidente Lula apresentava o projeto de lei de minerais críticos ao presidente Trump como sinal de que o Brasil está organizando sua governança mineral.

O Senado recebe agora o PL 2.780/2024. É uma oportunidade real. A arquitetura institucional que o texto cria é melhor do que o vazio que existe hoje. E é uma oportunidade que pode ser desperdiçada, da mesma forma que o PLS 529/2013 foi desperdiçado, se o texto for aprovado sem os instrumentos que transformam incentivo em obrigação, e intenção em resultado.

Há uma frase que gostaria de destacar deste percurso de pesquisa sobre a história das terras raras no Brasil. Publicada no Jornal da Ciência de 2014, do professor Serra: ‘Estamos bem atrasados nesse aspecto.’ Ele dizia isso sobre a purificação em grande escala. A frase cabe, com a mesma precisão, para a decisão política que ainda não veio.

Não estamos atrasados por falta de ciência. Estamos atrasados por falta de decisão. E cada janela que se fecha piora as condições da próxima.

Francilene Garcia é presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), presidente do conselho de administração da EMBRAPII, coordenadora do PTHI e professora da UFCG.

 

Veja as notas do Especial da Semana – Terras raras

JC Notícias – PL 2.780/2024 no Senado: o que a comunidade científica obteve e o que ainda falta obter

JC Notícias – Política para minerais estratégicos e o debate histórico sobre soberania tecnológica no Brasil

Jornal da Ciência, 06/05/2026 – Da bancada ao plenário: a ciência tem um recado para o Congresso

Jornal da Ciência, 05/05/2026 – SBPC, ABC e sociedades científicas defendem ajustes em projeto sobre minerais críticos

Agência Câmara de Notícias – Câmara aprova criação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos

O Eco, 06/05/2026 – PL dos Minerais Críticos avança na Câmara sob críticas de ambientalistas e especialistas

Agência Brasil, 07/05/2026 – Especialistas e municípios criticam PL sobre minerais críticos

DW Brasil, 07/05/2026 – Entenda o marco legal para Minerais Críticos no Congresso

CNN Brasil – PL dos Minerais Críticos estabelece prazo máximo para pesquisa mineral

Congresso em Foco, 07/05/2026 – PL dos Minerais Críticos é “afirmação da soberania”, diz Silveira

Observatório do Clima, 05/05/2026 – PL dos Minerais Críticos incentiva extrativismo e compromete inserção brasileira no mercado global

Agência Brasil – Câmara aprova fundo de até R$ 5 bilhões para minerais críticos

Rafael Cardoso – Agência Brasil, 25/04/2026 – Terras raras, minerais estratégicos e críticos: entenda as diferenças

Alex Rodrigues – Agência Brasil, 05/05/2026 – Brasil tem “vazio estratégico” em minerais críticos, diz especialista

Folha de S. Paulo – Sinais contraditórios na agenda mineral brasileira

Blog Tânia Malheiros, 04/04/2026- Terras raras: mineradora dos EUA anuncia compra de brasileira Serra Verde, em Goiás

Agência Pública, 04/05/2026 – Terras raras: Serra Verde impacta córregos em Goiás, diz análise de órgão ambiental

Folha de S. Paulo, 08/04/2026 – As terras raras e o discurso de soberania

Estadão, 07/05/2026 – Brasil está bem posicionado na corrida por minerais críticos, diz diretor do CEBC