A ascensão de um novo ciclo de negacionismo e ataques à ciência sob o governo de Donald Trump nos Estados Unidos, com impacto global na pesquisa, cooperação científica e nas políticas de internacionalização do conhecimento podem representar um grande retrocesso no desenvolvimento acadêmico e científico, por um lado. Por outro, podem ser uma oportunidade de outras nações ascenderem e tomarem a liderança.
Esta edição do Jornal da Ciência propõe investigar como essa conjuntura afeta não apenas os Estados Unidos, mas também o Brasil e o mundo: o caso DeepSeek, de como a China deu uma rasteira na OpenAI, mostra que a liderança da inteligência artificial pode estar mudando de mãos. Em outra reportagem, explora os impactos na mobilidade de pesquisadores, financiamento de pesquisas e o reposicionamento global da ciência e analisa como o Brasil pode transformar essa crise em uma oportunidade para fortalecer sua própria política científica e seu papel no cenário global.
Líderes mundiais em produção científica desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA entraram este ano, com a posse de Trump, em um inacreditável processo de autossabotagem, institucionalizando o negacionismo, demitindo profissionais tarimbados em áreas-chave, cortando drasticamente o financiamento à pesquisa e até censurando o trabalho dos cientistas com a proibição do uso de termos como gênero e racismo. O efeito cascata das sanções contra a ciência: fuga de cérebros, isolamento e desmonte de políticas públicas baseadas em evidência.
O que está em jogo é mais do que o futuro da ciência estadunidense, é a própria dinâmica da produção global de conhecimento. O Brasil pode continuar como espectador ou aproveitar o vácuo criado pelo retrocesso dos EUA para reformular suas estratégias, fortalecer sua soberania científica e redesenhar seu papel no mundo.
A saída dos EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Acordo de Paris traz consequências ainda pouco calculadas para a governança global da ciência, com impactos na cooperação internacional e um enfraquecimento da rede global de conhecimento. Haverá um rearranjo com China, América Latina e União Europeia ocupando espaços deixados pelos EUA: a mudança de polos no poder científico e tecnológico, como analisa a cientista da computação e vice-presidente da SBPC, Francilene Procópio Garcia, na entrevista da página 18.
O momento para o Brasil mudar de rota e sair por cima dessa verdadeira desordem global é agora, como demonstra a reportagem sobre o programa governamental de incentivo à repatriação de cérebros que “fugiram” do país nas últimas décadas rumo aos EUA. Com os cortes de verbas do governo estadunidense aos seus principais programas de financiamento da pesquisa científica, em especial na área da saúde, muitos brasileiros estão buscando o apoio do governo para voltar ao país e desenvolver seus projetos com estabilidade.
Especialistas avaliam como a política científica brasileira pode suprir lacunas deixadas pelos EUA, o papel das universidades e instituições científicas em tempos de obscurantismo. Para eles, é preciso reforçar políticas públicas de valorização e proteção da ciência brasileira. O recuo dos EUA no financiamento de projetos de pesquisa em doenças negligenciadas como dengue, malária Chagas e leishmaniose mostrou a importância de contar com apoio nacional para as pesquisas na área.
O momento é de preocupação, mas também de esperança e o conteúdo desta edição é uma contribuição para pensar sobre o tema.
Baixe o seu exemplar gratuitamente e boa leitura!
Renato Janine Ribeiro
Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)
Paulo Artaxo
Vice-presidente da SBPC e coordenador do Centro de Estudos Amazônia Sustentável (CEAS) da USP