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Avanço no CsF deve contar com fiscalização dos alunos e mais rigor na análise de dados

Uma grande inquietação para tornar o Brasil um país que ofereça boas condições econômicas e sociais a toda população e apresente um ensino superior que estimule o aluno a acreditar em projetos inovadores e capazes de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico. A frase resume o sentimento de grande parte de jovens estudantes brasileiros de graduação que participaram do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF), desde a sua criação, em 2011. Durante a 67ª Reunião Anual da SBPC, uma sessão especial, realizada no dia 16, foi dedicada a relatos dos bolsistas do Programa Ciência sem Fronteiras.
Jovens universitários querem trazer para o Brasil as experiências de excelência vivenciadas em universidades de ponta e estágios em empresas multinacionais
Uma grande inquietação para tornar o Brasil um país que ofereça boas condições econômicas e sociais a toda população e apresente um ensino superior que estimule o aluno a acreditar em projetos inovadores e capazes de contribuir para o desenvolvimento socioeconômico. A frase resume o sentimento de grande parte de jovens estudantes brasileiros de graduação que participaram do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF), desde a sua criação, em 2011. Durante a 67ª Reunião Anual da SBPC, uma sessão especial, realizada no dia 16, foi dedicada a relatos dos bolsistas do Programa Ciência sem Fronteiras. 
A lista de elogios é extensa. Todos os participantes da sessão enalteceram a oportunidade de crescimento pessoal e acadêmico, além da oportunidade de poder passar um ano estudando em universidades de excelência fora do Brasil e ainda fazer estágios em empresas como Boeing, nos EUA, Hyundai, na Coreia do Sul, e laboratórios científicos como os da Nasa e o Centro Canadense de Neurociência Comportamental.
 
Mas nem tudo são flores. Os alunos alertam que é preciso haver mais fiscalização com relação às matérias cursadas, verificando se elas realmente têm pertinência e coerência com o curso de graduação escolhido no Brasil. Um rigor maior na avaliação dos dados também faz parte das observações de quem passou pelo CsF. 
Mais rigor na avaliação dos dados
Guilherme de Rosso Manços, aluno de mestrado no Brasil, participante da primeira turma do Ciência Sem Fronteiras e cofundador da Rede CsF, chama a atenção com relação à gestão do programa. “As agências de fomento tiveram várias dificuldades durante a implementação e o acompanhamento. Acredito que após quatro anos as agências aprenderam bastante e isso vai trazer melhorias para a execução do Ciência sem Fronteiras”, explicou.
Manços faz ainda um questionamento com relação aos resultados do programa. De acordo com o ex-integrante, é preciso avaliar os dados existentes com mais profundidade e mostrar isso para a sociedade. “No mais, sabemos que, até o fim de 2014, já haviam retornado ao Brasil 40 mil bolsistas e em breve teremos mais algumas dezenas de milhares de egressos. Então estamos em um movimento de retorno muito forte e, a partir de agora, será possível perceber mais efeitos na Universidade, no mercado de trabalho e até mesmo nas questões sociais. Sabemos que daqui a 10, 15 ou 20 anos, muitos serão donos de empresas, gestores públicos, professores, chefes de laboratório, entre outros. É no longo prazo que virão as maiores mudanças”, completou.
Ele diz que o programa trouxe muitos resultados que já estão sendo implementados no dia a dia das universidades parceiras. “Um dos participantes, aluno do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) foi para o MIT (Massachusetts Institute of Technology), e ele voltou dizendo que as melhores aulas do MIT foram as de laboratório. Mas no ITA, eram as piores. Porque o ensino de engenharia no Brasil é muito teórico. Agora ele é monitor no ITA e já está implantando mudanças”.
Para o estudante Peirol Gomes, que cursa engenharia na Universidade Federal do ABC, e passou um ano nos EUA, entre as Universidades do Colorado, do Alabama e Stanford, o CsF foi tão impactante que ele criou o projeto MyCsF, que já tem 15 mil pessoas cadastradas. 
“Vivenciei experiências como aulas estimuladoras, aulas mais curtas, em que professores e alunos aproveitavam cada segundo. E inúmeras outras que me causaram uma grande inquietação quando retornei ao Brasil. Ao mesmo tempo uma vontade de poder compartilhar e ficar no Brasil, enquanto eu não arrumar tudo isso por aqui, ainda que eu tenha recebido convites para trabalhar no exterior. É uma questão de gratidão, porque o governo investiu em mim R$ 100 mil, tenho uma dívida com a sociedade brasileira”, afirmou Peirol, que anunciou durante a sessão a divulgação nos próximos dias de uma pesquisa feita com participantes do MyCsF.  
Cintia Akie Nakano, aluna do curso de Estatística da Universidade Federal de São Carlos, que escolheu a Coreia do Sul, não hesitou em fazer elogios à iniciativa. “Tive oportunidade de estagiar na fábrica da Hyundai e conhecer laboratórios que geralmente só são abertos para engenheiros. Aprendi coreano, vivenciei uma cultura completamente diferente, trouxe a lição que, a partir do planejamento bem feito, tudo é possível. Mas acho que o programa precisa ter uma fiscalização maior com relação às atividades que o aluno está desempenhando em outro país. Senti falta de uma fiscalização mais forte”, comentou.
Desafios
Aluno de escola pública no ensino fundamental na Bahia, Felipe Regis, que cursa engenharia na USP, é grato ao CsF pela oportunidade de passar um ano nos EUA, recebendo desafios diários que o levaram a conseguir um estágio na Nasa e desenvolver um projeto de um satélite que chegou a uma altura de 100 mil pés.
“Guardo com muito carinho a foto que fiz da circunferência da Terra pelo satélite. Consegui um estágio na Nasa na época em que o programa ainda estava com dificuldades para estabelecer a ponte entre estudantes e empresas para oferta de estágios. Pelo meu network, consegui a oportunidade. Então resumo o programa com uma palavra, desafio”, comentou. 
A estudante do curso de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC Niara Lungow enalteceu a oportunidade de passar um ano entre a Universidade da Flórida Central e a Universidade do Alabama e passar para  um estágio na Boeing. 
“Tive a oportunidade de construir um motor foguete, aprender com os erros, um dos foguetes explodiu na nossa frente no laboratório dentro da universidade, onde interagi com profissionais com experiência na Nasa. Depois fui selecionada para um programa de estágio na Boeing, onde meu grupo ganhou um prêmio pelo desenvolvimento de um drone. Isso tudo não tem preço. Mas percebi que o ensino da graduação no Brasil é muito forte. Eu fiz matérias aqui que correspondiam ao mestrado nos EUA”, comentou Niara. 
Marcos Pereira dos Santos, aluno da UFSCar do curso de Biotecnologia, optou pelo Canadá, pela província de Alberta, onde conseguiu um estágio no Centro Canadense de Neurociência Comportamental. Entre as experiências mais relevantes, ele citou a preocupação dos canadenses em preservar a sanidade mental dos alunos.
“Tínhamos sessões para aliviar o estresse, com filhotes de cachorros e marteladas em carros sucata. Havia um controle grande sobre o que fazíamos como disciplinas, não podíamos cursar o que não apresentava correlação com o programa escolhido”, pontuou. 
Rede CsF lança cartilha para orientar alunos
A Rede CsF vai lançar, nos próximos quinzes dias, a cartilha “Universidade Presente – um guia para acompanhar o aluno no exterior”. Guilherme de Rosso Manços explica que o material da cartilha surgiu de dados revelados pela pesquisa Melhoria CsF. “A cartilha será lançada em breve para todas as universidades brasileiras e traz sugestões em três perspectivas”, comentou Manços em entrevista ao Jornal da Ciência.
Segundo o cofundador da Rede CsF, na perspectiva do período pré-mobilidade acadêmica, os pontos principais estão relacionados às orientações aos estudantes sobre a universidade estrangeira, o país de destino e as obrigações dele no papel de bolsista, além de orientações acadêmicas. Do ponto de vista do período de vigência da bolsa, as recomendações da cartilha dizem respeito a um acompanhamento mais próximo, por parte das universidades, por meio de relatórios e documentos que captem informações sobre adaptação, desempenho e integração.
“E na perspectiva pós-mobilidade, a Rede CsF identificou problemas principalmente com relação ao aproveitamento de créditos de disciplinas e demais atividades realizadas no exterior”, afirmou. 
Para Manços, é imprescindível haver um trabalho mais integrado entre os escritórios de relações internacionais das universidades e as coordenações de cursos, juntamente com a colaboração dos próprios estudantes e professores. “Precisa-se de uma avaliação contínua do programa Ciência sem Fronteiras, além de discussões e planos de ação holísticos para podermos de fato trazer um retorno do investimento ao país”, comentou.
Na visão do cofundador da Rede CsF, o Programa surgiu em um  momento muito bom. “No Brasil, existe uma alta demanda pela formação de recursos humanos qualificados nas áreas de ciências básicas, engenharias e demais áreas tecnológicas e pela internacionalização. Para contextualizar, dados mostram que enquanto a Toyota registrou mais de mil patentes em 2009, as empresas brasileiras não registraram, somadas, nem metade dessa quantidade no mercado internacional (Jornal Brasil Econômico, 2010); um levantamento da CAPES, com dados também de 2009, mostrou que o Brasil forma cerca de 40 mil engenheiros por ano, em comparação a 190 mil na Rússia, 220 mil na Índia e 650 mil na China. E a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) fala de “escassez de engenheiros” quando somente 5% dos graduados no Brasil vêm das engenharias”, detalhou.
Em relação à sua experiência pessoal, Manços afirmou que o Ciência sem Fronteiras foi transformador e disse que essa também é a opinião de muitos colegas. Entre os pontos positivos, ele elenca a possibilidade de estar nos melhores centros educacionais do mundo, a adaptação a outros ecossistemas culturais, acadêmicos e profissionais. “Tudo isso nos permite adquirir uma nova perspectiva global. E quando retornamos ao Brasil, essas novas perspectivas nos acompanham. Já é possível perceber o quanto o programa está interferindo positivamente na estrutura organizacional das universidades”, completou. 
Ele acrescentou que alguns currículos de cursos de graduação estão sendo reformulados. “A colaboração entre grupos de pesquisa brasileiros e estrangeiros aumentaram significativamente. E a experiência internacional de estágio e pesquisa que tivemos durante o intercâmbio também tem impacto interessante no que diz respeito ao prosseguimento para o mercado de trabalho ou para cursos de pós-graduação”.
(Suzana Liskauskas/ Jornal da Ciência)