É preciso permitir que as pessoas falem sobre suas experiências de distanciamento social na volta às aulas, diz Renato Janine Ribeiro

O ex-ministro da educação e professor de ética e filosofia da USP apresentou a conferência "Educação nos novos tempos" nessa quarta-feira, 15, durante a Mini Reunião Anual Virtual da SBPC

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Durante a palestra “Educação nos novos tempos”, o professor de Ética e Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro, ressaltou que o maior desafio imposto pela pandemia, além da aplicação do conteúdo pragmático, é a criação de espaços de diálogos para que professores, funcionários e alunos possam conversar sobre suas percepções e sentimentos. A atividade, que faz parte da Mini Reunião Anual Virtual da SBPC, foi apresentada pela vice-presidente da entidade, Fernanda Sobral.

Janine disse que o isolamento social interrompeu a socialização, tão importante na educação, e que a situação só não foi pior graças à internet. Por isso, é preciso permitir que as pessoas falem sobre suas experiências de distanciamento social. “Nós estamos vivendo uma pancada emocional e ao voltar às aulas, ao trabalho, eu recomendo que é preciso tratar este trauma. E os professores, chefes, dirigentes, precisam ter o mínimo de formação psicológica para saber escutar, já que todos precisam falar de sentimentos. Isso é possível, mas requer muito trabalho”, afirma. Em referência a uma observação da chanceler alemã Angela Merkel, Janine descreveu a pandemia como o maior desafio mundial desde a Segunda Guerra.

“Muita coisa pode ser feita de modo remoto, mas a socialização não.  E educar é de dentro para fora. E, ao tirar a criança de dentro de casa, ela descobre que além dos irmãos, têm outras crianças. Que além dos pais, têm outros adultos. E esse aspecto está sendo prejudicado”, explica Janine, que é também conselheiro da SBPC.

Ao falar sobre o ensino à distância, Janine abordou os abismos socioeconômicos entre os alunos do ensino privado e público, especialmente nas periferias. “No âmbito público os educadores estão esbarramos com, além da falta de preparo, falta de equipamentos, inexistência de acesso à banda larga. Muitos alunos vivem em lugares pequenos e não conseguem um espaço reservado para estudar”, lamenta.

Quanto à postura do Ministério da Educação diante da pandemia, Janine, que foi ministro da Educação por cerca de sete meses em 2015, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), afirma que a Pasta “primou pela ausência absoluta”. “Os secretários estaduais e municipais tiveram que se virar. E os municipais estão fazendo voo solo. Eles estão sem capacidade de se articular, de construir estratégias conjuntas. São eles que lidam com o ensino infantil. E é lá que as crianças são mais vulneráveis”, afirma.

Para o professor da USP, a alfabetização das crianças no ensino básico deve ser priorizada. “Temos de priorizar a alfabetização na idade certa, como aconteceu no Ceará, com governo de Cid Gomes, em 2007, e depois foi nacionalizado em 2013, com o ministro Mercadante. A ideia é que cada município foque nisso, mas o MEC errou em não incluir os Estados como parceiros fortes”, disse.

Assista aqui à conferência na íntegra.

A Mini Reunião Anual Virtual da SBPC segue por toda a semana e maiores informações podem ser obtidas acessando este link: http://ra.sbpcnet.org.br/mini-ravirtual/

 

Vivian Costa – Jornal da Ciência