Sem isolamento e máscaras, vacinas não vão resolver, alertam especialistas

Em painel da 72ª Reunião Anual da SBPC, médicos e pesquisadores relatam o panorama da doença e revelam preocupação com o desrespeito às medidas sanitárias

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A nove meses da chegada da pandemia do novo coronavírus ao País, as perspectivas para solução da crise sanitária para 2021 são incertas. É o que se depreende do relato dos especialistas convidados do painel “A pandemia do coronavírus no Brasil”.

Realizado sexta-feira (4/12), o painel fez parte da programação do quarto e último ciclo da 72ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que este ano foi inteiramente no formato virtual e estendido.

A atividade foi coordenada por Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), e contou com a participação do epidemiologista Cesar Gomes Victora, professor emérito da Universidade Federal de Pelotas (UFPel); o médico oncologista Dráuzio Varella; Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico de Combate ao Coronavírus do Consórcio Nordeste e Esper Georges Kallás, professor titular do Departamento de Moléstias Infecciosas e Parasitárias da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Esper Kallás apresentou um panorama completo sobre os estudos e testes das vacinas. São mais de 200 produtos em desenvolvimento pelo mundo, dos quais 42 estão em fase pré-clínica e seis já estão sendo aplicados de forma restrita, sendo quatro da China, um da Índia e um da Rússia.

No Brasil há quatro vacinas em estudos, já na fase três – AstraZeneca, Sinovac/Butantan, Pfizer/BioNtech e Janssen. Mesmo com boas perspectivas de imunização, Kallás lamentou que as disputas políticas entre os governos federal e estadual possam prejudicar a aceitação das vacinas quando elas estiverem prontas, e se disse preocupado com o relaxamento das medidas sanitárias. “Se houver uma falsa sensação de imunidade, podemos experimentar um momento da pandemia como a Europa e os EUA estão experimentando e isso vai ser uma tragédia.”

Dráuzio Varella relatou a experiência da iniciativa Todos pela Saúde, do qual ele faz parte com uma equipe dedicada a gerenciar uma doação de R$ 1,350 bilhão do Banco Itaú e de outros doadores para medidas emergenciais de combate à covid-19. Ele também alertou para o excesso de expectativa sobre as vacinas. “O cenário é da maior gravidade porque os brasileiros decretaram o final da pandemia por conta própria, as pessoas começam a se reunir e os casos vão aumentando outra vez”, disse. E acrescentou: “Nós não temos condições de conter a epidemia com as vacinas em um horizonte previsível.”

Miguel Nicolelis contou sobre os trabalhos do comitê científico criado para apoiar os governadores de nove estados do Nordeste, oferecendo cenários e informações necessárias para a formulação de políticas públicas de combate à pandemia. Segundo ele, as medidas recomendadas pelo comitê permitiram que a região lidasse com a doença da melhor maneira disponível.

“Acredito que o fato de haver essa abertura dos gestores públicos para lidar com a ciência e dialogar com o comitê cientifico da região, cientistas de várias áreas, no início do processo foi extremamente importante, porque nós tivemos a possibilidade de lidar (com a situação) ”. Os dados apresentados mostram que o número absoluto e por 100 mil habitantes do Nordeste até outubro ficou abaixo das demais regiões.

César Victora, idealizador e um dos coordenadores do Epicovid-19, fez um balanço deste que é considerado o maior estudo populacional sobre a covid-19 do mundo. Realizado pela UFPel, o Epicovid-19 identificou a prevalência da doença em todo país a partir de uma pesquisa ampla que interrogou e colheu amostras de sangue de milhares de brasileiros.

A pesquisa começou no estado do Rio Grande do Sul e em maio foi contratada pelo Ministério da Saúde para uma expansão por todo o país. No entanto, quando mudou o comando do Ministério, o apoio foi retirado. Victora denunciou que o motivo do cancelamento do contrato foi que a UFPel não aceitou a censura sobre os resultados da pesquisa. Segundo ele, o ministério, sob comando do general Eduardo Pazuelo, pediu que não fosse divulgado o principal resultado, que indicava prevalência de covid-19 mais elevada no Amazonas e a vulnerabilidade dos indígenas, maior que a do restante da população, com cinco vezes mais prevalência. “Esse achado foi censurado pelo Ministério da Saúde”, afirmou Victora.

Assista ao debate na íntegra, no canal da SBPC no Youtube.

Jornal da Ciência